Porque o perdão de Deus só foi possível com a morte de Cristo?

Que sentido faz Cristo ter que morrer para que Deus possa nos perdoar? - Por Hermes C. Fernandes 

Tomando por certa a disposição de Deus em nos perdoar graciosamente, deparamo-nos com uma intrigante questão: qual teria sido a necessidade da morte vicária de Cristo? Ou em outras palavras: por que Cristo teria que se oferecer pelos nossos pecados?

Não seria mais simples se Ele tão somente nos perdoasse? Não é justamente isso que Ele requer que façamos àqueles que nos magoam?

Na oração do Pai Nosso, Jesus nos ensina a pedir que sejamos perdoados assim como temos perdoado os nossos devedores.[1] Não há ali qualquer menção à reparação do dano. Perdoar é abrir mão de um direito. É aceitar o prejuízo. Se devemos buscar o padrão divino (“Sede imitadores de Deus como filhos amados”[2], lembra?), então, nada mais justo do que perdoar mediante reparação. Mas, peraí, isso não seria perdão!

É verdade que o pecado se constitui uma dívida com Deus. Ele nos fez com um propósito específico, mas insistimos em viver à nossa própria maneira. Ele nos fez para o outro, mas preferimos viver para nós mesmos. Por isso, contraímos uma dívida com Aquele que nos projetou e criou.

Geralmente, acredita-se que a morte de Cristo tenha sido um pagamento feito a Deus. Ficamos quites com Ele mediante a oferta da vida de Seu próprio Filho. Passa-se a impressão de um Deus relutante em nos oferecer perdão. Não é de se admirar que os cristãos tenham tanta dificuldade em perdoar. Ninguém aceita ficar no prejuízo. A gente até perdoa, mas desde que alguém se disponha a reparar o dano.

Sinceramente, prefiro acreditar que haja um grande mal entendido.

Não era Deus que precisava da cruz para poder nos perdoar. Éramos nós que precisávamos de algo que nos revelasse a gravidade de nossos pecados, a fim de que atribuíssemos o devido valor à Sua graça.

A salvação nos saiu a um custo zero, mas custou-Lhe a própria vida.

Foi o próprio Deus quem arcou com a consequência da nossa rebelião.

Na cruz, vemos um Deus exposto, vulnerável, fragilizado. Um Deus justo que não pode ser conivente com o pecado, e que, por isso, estabelece uma sentença, mas aplica-a a Si mesmo.

O amor ali revelado deve nos constranger ao ponto de nos fazer sentir nojo de nossos próprios pecados.[3] Um constrangimento análogo ao experimentado pelo filho pródigo ao ser recebido de volta ao lar. [4]

Já ouvi argumentos contrários à necessidade da cruz baseados justamente nessa parábola. Afinal, o pai recebeu em casa o seu filho sem exigir qualquer ressarcimento dos bens desperdiçados.  Se conhecêssemos melhor o contexto social e cultural em que esta parábola transcorre, entenderíamos o que significou àquele pai sair correndo em direção ao filho, abraçá-lo e beijá-lo, dar-lhe um anel, bem como roupas e calçados novos, mandar matar o bezerro cevado (especialmente preparado para ocasiões especiais) e ainda por cima, recepciona-lo com festa. Numa sociedade patriarcal, aquele homem expôs sua autoridade, abrindo um perigoso precedente.

Na cruz, dois dos principais atributos divinos que correm paralelos convergem e se cruzam. A justiça e o amor se harmonizam. Apesar de jamais ter havido qualquer atrito entre eles, era necessário que percebêssemos através de um gesto radical o alto custo para mantê-los devidamente afinados. A haste horizontal da cruz bem que poderia representar a justiça. Ela não poderia pender nem para a esquerda, nem para a direita, mas manter o equilíbrio (equidade). A haste vertical representaria o amor. Ele que dá sustentação à justiça. Ele é a base que se ergue entre o céu e a terra. É sobre o amor que a justiça está estabelecida. Sem a haste vertical fincada no chão da existência, a haste horizontal não se elevaria. O lugar de encaixe entre as duas hastes se chama graça. Ela é o árbitro que anuncia a vitória da misericórdia sobre o juízo.

Deus jamais poderia ser acusado de agir com impunidade ou conivência. Sua justiça segue imaculada. Nossos pecados foram perdoados. Porém, o prejuízo que eles causaram custou Sua própria vida.

Não há perdão sem cruz! Cada vez que perdoamos a alguém, experimentamos a crucificação do nosso ego. Arcamos com o prejuízo. Liberamos o outro da obrigação de se retratar.

Lemos que o Cordeiro foi morto desde antes da fundação do mundo.[5] No momento em que Deus decidiu criar todas as coisas, sabendo o que Lhe esperava, Ele Se entregou. Portanto, a cruz não foi um plano tapa-buraco. Não foi um improviso. Um Deus soberano e todo-amoroso resolveu apostar Suas últimas fichas em Sua criação. Ele decidiu nos perdoar muito antes que houvéssemos pecado.

Ele não pagou a nossa dívida. Ele rasgou a promissória. Pelo menos, é disso que Paulo fala em Colossenses 2:14: “E havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz.”

Ele simplesmente aceitou o prejuízo. Por amor.

Isso é graça! O resto é contabilidade. Sem amor, a conta nunca vai fechar. Sempre haverá quem nos deva e não nos possa pagar.

[1] Mateus 6:12
[2] Efésios 5:1
[3] 2 Coríntios 5:14
[4] Lucas 15:11-32
[5] Apocalipse 13:8; 1 Pedro 1:20

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